Um estudo publicado na Nature em setembro apresentou o prime assembly, método de engenharia genômica que permite integrar fragmentos longos de DNA em posições programáveis dentro de células vivas. A técnica utiliza a síntese de flaps duplos direcionada por CRISPR e foi desenvolvida por equipe liderada pelo Boston Children’s Hospital, com cargas de até cerca de 12 mil pares de base.

O prime assembly não depende de quebras na fita dupla de DNA nem de reparo dirigido por homologia, dois pontos clássicos de toxicidade e estresse celular. Usando o prime editing para escrever uma aba de DNA de fita simples em cada fita do genoma, o sistema controla exatamente onde a substituição começa e termina, e o DNA doador se ancora pelas extremidades complementares antes que a maquinaria natural de reparo conclua a integração.
Diferentemente da maioria das ferramentas de edição, o método se mostrou igualmente ativo em células que se dividem e em células que não se dividem, o que abre caminho para aplicação em neurônios e cardiomiócitos. Os pesquisadores demonstraram recodificação de éxons, integração de transgenes e rearranjos em escala de megabases, incluindo inserção no locus TRAC em linfócitos T primários de quatro doadores saudáveis, o sítio usado na engenharia de células CAR-T.
Para a indústria de terapias avançadas, o impacto é estratégico: em vez de corrigir uma mutação por vez, torna-se viável substituir o gene inteiro, atendendo com um único produto pacientes portadores de centenas de mutações distintas no mesmo gene. Como métodos de inserção não direcionada podem ativar genes errados e gerar risco oncogênico, a precisão do endereçamento também é um argumento regulatório. O trabalho segue em fase pré-clínica, com foco atual na entrega dos componentes a células-tronco hematopoiéticas in vivo.